Caminhoneiro é baleado em tentativa de assalto na BR-101

Em mais uma ação de criminosos escondidos em comunidades ao longo dos 21 quilômetros do trecho da BR-101 entre Niterói e Manilha, considerado pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) como o mais perigoso do país, o motorista Allyson Costa Maciel, de 40 anos, foi baleado na cabeça ao se recusar a parar numa blitz feita por bandidos na altura do Salgueiro, uma das três áreas de São Gonçalo na Região Metropolitana do Rio, tidas como as mais violentas.

A carreta conduzida pela vítima, que seguia do município de Santa Teresa, no Espírito Santo, para a Ilha do Governador, no Rio, com 520 pallets, ficou sem controle após disparos de fuzil feitos pelos bandidos. O tiro que atingiu Maciel perfurou o para-brisa e raspou sua cabeça. Desgovernada, a carreta atravessou a pista, derrubando as divisórias de metal, e tombou no acostamento da pista sentido Itaboraí.

A carga não foi levada. O motorista foi conduzido para o Hospital Estadual Alberto Torres, em São Gonçalo, onde foi submetido a uma neurocirurgia e, no momento, encontra-se no CTI com quadro de saúde estável, segundo a assessoria de imprensa da unidade.

O dono da Pozzatti Pallets, José Vitório, esteve no hospital para para saber do estado de saúde do funcionário e depois foi ao local do ataque acompanhar o transbordo da carga. Ele disse que, em seis anos de atividades na BR-101 transportando cargas para o Rio de Janeiro, foi o segundo ataque sofrido.

– Em 2017, um dos nossos motoristas sofreu um ataque na Avenida Brasil. Houve uma intensa troca de tiros entre policiais militares e os ladrões. Um dos policiais foi morto no tiroteio. Os motoristas comentam do medo que sentem em transitar por aqui. Eles passam de madrugada neste trecho da BR-101 para aproveitarem o perigo do de permissão de trânsito de caminhões na Ponte Rio-Niterói. Nossa carga não é de interesse para os criminosos. Vamos adotar medidas de segurança. Colocar fotos dos pallets na carroceria e mudar de rota, passando a ir para o Rio por Magé, evitando assim a Niterói-Manilha – anunciou José Vitório.

Moradores da localidade onde o caminhão tombou, no bairro de Itaúna, contaram que, na noite de quinta-feira, ocorreram outros dois ataques a caminhões de carga. Um deles foi levado para comunidade do Salgueiro. O inspetor Marcos Madeira, chefe interino operacional da 2ª Delegacia de Polícia Rodoviária Federal (de Niterói a Carapebus), não confirmou esses dois outros casos, mas relatou que, na noite de segunda-feira, numa ação integrada entre a PRF e a Polícia Militar, por pouco não foram presos criminosos que haviam atacado um caminhão com carga.

– Esses grupos criminosos têm muitos olheiros. Fomos acionados e partimos em direção ao local do ataque. O Salgueiro tem dois locais de acesso e saída. Havia uma viatura do 7º BPM numa dessas entradas. Mas os bandidos souberam disso e entraram com o caminhão pelo outro acesso. Aí não pudemos fazer mais nada – comentou o inspetor da PRF.

Para Madeira, o trecho da Niterói-Manilha é o mais perigoso do país em ocorrências criminais com disparos de arma de fogo. Como exemplo, ele citou o baixo número de policiais que aceitaram trabalhar na 2ª Delegacia da PRF quando abriram vagas em dezembro de 2018.

– Havia 350 vagas, mas só 105 foram preenchidas. Isso se deve à periculosidade da região. É o mais perigoso do país. E começou a ficar assim após o advento das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) no Rio. Elas provocaram a saída de muitos bandidos, que vieram para São Gonçalo, um local próximo, trazendo armamentos pesados e uma logística de ação que não havia na região. E eles são muitos ocupando principalmente três áreas às margens da BR-101: Salgueiro, entre os kMs 308 e 309; Jardim Catarina, entre os kMs 305 e 306; e a comunidade do Bom Retiro, no Morro da Viúva, na altura do pedágio – descreveu.

Madeira frisa que São Gonçalo é uma cidade com quase um milhão e meio de habitantes e tem um batalhão apenas com 700 policiais.

– Mas um trabalho integrado realizado entre nós e a Polícia Militar tem surtido efeito. O ideal seria se conseguíssemos ocupar todas as saídas para as comunidades. Mas o número de agentes à disposição, tanto na PRF como na Polícia Militar, ainda é muito baixo. Acho que isso iria diminuir bastante o problema – comentou o inspetor Madeira.

Segundo ele, esse trabalho integrado começou em julho do ano passado. Além disso, em agosto de 2019, a Superintendência Regional da Polícia Rodoviária Federal instituiu o programa Indenização por Flexibilização do Repouso Remunerado (IFR), uma vertente do RAS (Regime Adicional de Serviço) pago a policiais militares para trabalhar nas suas folgas.

– O Orçamento da União aprovado em 2018 para o exercício de 2019 incluiu recursos para o IFR. Porém, ele só foi aprovado no Congresso Nacional em julho, entrando em vigor no mês seguinte. Foram R$ 32 milhões para o programa em todo o Brasil. Para o Rio, foram disponibilizados entre R$ 70 mil a R$ 100 mil por mês. De agosto a dezembro do ano passado, conseguimos dias em que triplicamos o número de PRFs atuando no trecho.

Ele contou que nesse início de ano, como a verba do Orçamento para o programa ainda não foi repassada, o número de policiais rodoviários federais no IFR diminuiu. Hoje, o número de agentes reforçando o policiamento é de 4 a 8 por dia. Nos 21 Km da Niterói-Manilha há apenas 7 policiais rodoviários federais lotados. A 2ª Delegacia tem, ao todo, cerca de 100 policiais. Mas, hoje, somente 70 estão em atividade. Há muitos agentes de licenças psiquiátricas e médicas.

– O estresse do trabalho deixa os policiais doentes. Mesmo nos dias de folga, quando vão viajar, por exemplo, para a Região dos Lagos, só a passagem pela Niterói-Manilha deixa muitos agentes tensos. Eles sabem da vulnerabilidade e periculosidade desse trecho – lamentou.

Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) demonstram que a nova estratégia deu certo no ano passado. De janeiro a novembro de 2019, o número de roubos de carga na área do 7º BPM (São Gonçalo) diminuiu 18,4%. No mesmo período de 2018, foram registrados 8.394 casos. Em 2019, foram 6.846, 1.548 registros a menos. O inspetor Marcos Madeira disse que, em dezembro, o número de casos diminuiu mais ainda se comparado ao mesmo mês do ano anterior. Ele calcula que a redução chegou a cerca de 60% do número de casos.

Em agosto do ano passado, em audiência pública na Assembleia Legislativa, o chefe do setor operacional da PRF no Rio, inspetor Marcelo Vinícius, previu um aumento entre 30% e 40% de agentes com a adoção do IFR.

Na audiência, o representante da Polícia Militar comentou que, no primeiro semestre de 2019, o batalhão da região de São Gonçalo, que compreende 80% da extensão do trecho Niterói-Manilha, registrou 12% e 20%, respectivamente, do total de roubos de veículos e de cargas em território fluminense. E revelou um dado preocupante: o município conta com menos de um policial para cada mil habitantes, índice muito inferior ao previsto pela Organização das Nações Unidas (ONU).

Fonte: Extra 

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