Conheça a rotina dos caminhoneiros uruguaios que esperam em Ivoti

De onde eles vêm, o idioma é outro. 


A rotina de um caminhoneiro é vivida por longos dias e noites na boleia, mas também tem muito de esperas. Para estes profissionais, a mesma cabine por onde se conduz o veículo é também um teto, uma cozinha, um dormitório. O caminhão é um local de trabalho, uma casa por si só.

É o que eles dirigem no seu dia a dia pelas rodovias do País, com o pensamento na carga, no trânsito e na família. Em Ivoti, mais precisamente no bairro Bom Pastor, há importantes entrepostos e centros de distribuições. Volta e meia, os caminhões que aguardam para deixar a carga chamam também a atenção de moradores e de quem transita pela região.

Na semana passada, mais de 30 veículos aguardavam para descarregar cargas de leite em pó, trazidos do Uruguai. Cada um carrega 25 toneladas do produto. O descarregamento leva por volta de 1h30. Porém, só um caminhão pode retirar a carga por vez.

Os demais se organizam, aguardando da maneira que podem. Juan Pereira é de Rio Branco, cidade uruguaia na fronteira com a gaúcha Jaguarão. Dirigiu de lá até Montevidéu, capital uruguaia, onde carregou seu caminhão azul, retornando depois a Ivoti. Total da ida e volta: pouco mais de 1.200 quilômetros.

Juan é caminhoneiro há 35 anos. Ama o que faz. Conta que, apesar da distância, consegue ficar três dias por semana em casa. E, acredite: vindo para cá desde 1992, conhece o município da Encosta da Serra como poucos, embora com sua visão de viajante. “A cidade mudou muito. Ali, uma vez era mato, hoje tem uma plantação de mandioca”, aponta, com um português quase perfeito.

A maioria está há décadas na estrada, como Juan, e é acostumada ao compasso da espera. A forma de comunicação é o WhatsApp. Grupos no aplicativo são criados pelos motoristas para informar a posição na fila. Alegria é quando ocorre sua vez de retirar a carga. O companheirismo e as amizades feitas na estrada são fundamentais para evitar a solidão.

A viagem do caminhoneiro Juan dura em torno de quatro dias, contando o desembaraço na aduana na fronteira com o Brasil, que leva um dia inteiro. Em sua casa, aguardam a filha de 25 anos, e uma neta, de 4 anos. “Sinto saudade delas. Falo com minha filha todos os dias, para saber como elas estão. Ela fica bastante preocupada”, diz o caminhoneiro.

Cada um se vira como pode, pedindo e muitas vezes recebendo auxílio. Também em grupo, eles compram mantimentos e depositam em pequenos frigobares, instalados de maneira estratégica nas laterais dos veículos. Frutas, carnes, bebidas. Alguns são conservados até a próxima parada; outros precisam ser consumidas na hora.

Cledes Martins, gaúcho de Santa Vitória do Palmar, preparava massa com molho, temperada com cebola, para o almoço. “É o cozinheiro oficial do grupo”, conta o uruguaio Marcelo de Souza, do Chuí. “Dividimos entre todos, e isso aqui dá para três pessoas. Quando comecei a dirigir caminhão, já sabia cozinhar”, diz o modesto Cledes.

Em frente ao seu caminhão vermelho, Jhonny Medina, 41, morador de Treinta y Tres, também no Uruguai, fala sobre o sentimento na estrada. Questionado a descrever em uma palavra o que o veículo representa, também pensa nos familiares. “É meu sustento. Minha família está me esperando. Sem ele não consigo comer”, responde, antes de dar partida no caminhão e avançar na fila.

Existem, pelo menos, dois importantes centros de distribuição na Rua Albino Cristiano Müller. A espera era para descarregar em uma destas empresas. Os veículos ocupam as ruas do entorno. Há quem não se importe com a presença dos caminhões estacionados, mas há também quem conteste sua permanência por longos períodos.

O produtor Márcio Dutra tem uma horta hidropônica na mesma rua. Segundo ele, os veículos atrapalham o trânsito, especialmente em frente a Creche Bom Pastor, cujo acesso principal fica exatamente em frente a entrada do centro de distribuição.

“Aconteceram acidentes causados por caminhões que deram ré e bateram em outros veículos. Vejo que a empresa pode sim gerar renda e emprego, mas não pode atrapalhar o convívio social das pessoas. Acredito que eles têm capacidade de organizar o estacionamento lá dentro”, diz Dutra.

Já a cuidadora Sueli Jung cuida do pai, que mora em uma residência próxima, tem um posicionamento diferente. Ela mesma não vive ali, mas afirma que, se morasse, ofereceria sua casa sem pensar duas vezes. “É muito tranquilo, os caminhoneiros são muito educados. Não tenho muito o que dizer, apenas que são muito hospitaleiros”, comenta ela.

Fonte: O Diário
brasildotrecho:

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