Caminhoneiro reclama de entidade que representa a categoria

O maior problema dos caminhoneiros atualmente não é o governo, mas a crise de representatividade da categoria. 


A afirmação feita ao Valor é de Wanderlei Alves, o Dedéco, de Curitiba (PR), liderança espontânea que ganhou visibilidade nos últimos meses, em negociações em Brasília.


Segundo ele, os ânimos se acalmaram após o ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, suspender a tabela do frete publicada na última quinta-feira (18). Agora, diz o transportador autônomo, a classe aguarda posicionamentos do chefe da pasta em reunião marcada para esta quarta-feira (24), da qual ele participará.

“Quem tem que resolver os problemas são as instituições, mas temos uma questão grande com isso. As entidades só criam custos para nós. Até agora, o presidente da CNTA [Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos] não se manifestou”, diz Dedéco, referindo-se a Diumar Bueno. “Nosso maior problema é o Diumar, que pensa que está em um trono com uma redoma de vidro. O governo tem que resolver esse impasse com os caminhoneiros de uma vez por todas, e não somos nós que temos que ter essa iniciativa. São as entidades a quem pagamos e que nos representam”.

Dedéco afirma que o ministro reconheceu erros na tabela e que foi por isso, a pedido de representantes dos caminhoneiros, que ele suspendeu as novas regras. “A tabela não faz menção a uma série de custos, como pedágio. Se colocar tudo ao pé da letra, as transportadoras e os embarcadores não pagam nada além. Tivemos casos assim neste fim de semana, de recusa. Nosso diálogo com as empresas é ruim também por conta dessa representatividade, que é corrupta.”

Outros custos

O caminhoneiro enumera outros gastos pouco mencionados em meio às notícias sobre frete. Um deles é a Autorização Especial de Trânsito (AET) – documento expedido pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) para veículo ou combinação de veículos usados no transporte de carga que não se enquadrem nos limites de peso e dimensões estabelecidos pelo Conselho Nacional de Trânsito (CNT).



Segundo um canal oficial do governo, a Taxa de Emissão Regular custa R$ 1.654. Dedéco diz que as transportadoras com grandes frotas têm um gasto muito alto com essa tarifa e acabam embutindo esse impacto quando pagam os caminhoneiros. 

Ele cita ainda o Registro Nacional de Transportadores Rodoviários de Cargas, expedido pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), que custa R$ 170 por placa e é um serviço feito por intermediação de sindicatos e federações, que, segundo Dedéco, cobram taxas diferenciadas, também onerando o caminhoneiro.

“Por que temos que passar por um intermediário? É mais custo.” Tudo isso vai ser levado ao ministro, adianta ele. “Não é possível rodar só por custo, há muitas outras despesas. O caminhoneiro não quer parar. O veículo é um bem que deprecia. Se a gente parar, quebra.”

Conversão a gás

Sobre a ideia do ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, que manifestou intenção de usar o programa “Novo Mercado de Gás”, que será lançado nesta terça-feira, para estimular a conversão de caminhões para o gás natural veicular como uma forma de reduzir o consumo e o custo do frete no país, Dedéco afirma que dificilmente funcionaria no Brasil.

“A manutenção é complicada, e o gás reduz a potência do motor, diminuindo sua vida útil. As estradas do Brasil são ruins e muito sinuosas. Isso funciona em países como os Estados Unidos, onde há muitas rodovias planas.”

Para o caminhoneiro, a solução para reduzir o preço é aumentar a proporção de biodiesel, rever as taxas de ICMS dos Estados, que “são muito altas”, e tirar a PIS/Cofins sobre o combustível. “Solução há e não é difícil, mas tem que ser um pacto entre todos. É preciso haver vontade geral. O país para sem os caminhoneiros”.

CNTA 

A Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos (CNTA) informou ao Valor, em nota, que “[…] fez uma revisão técnica da Resolução Nº 5849 e identificou alguns pontos que causaram estranheza, como, por exemplo, o fato de equipamentos e condições operacionais diferentes — como granel sólido, conteinerizada, granel líquido e neogranel — apresentarem o mesmo valor para cálculo. Outro ponto notado, é que não há diferença nos valores da contratação do conjunto ou só do cavalo quando se refere à carga geral na linha de equipamentos de 5 e 6 eixos.”

A resolução — suspensa ontem pela Agência Nacional de Transportes Terrestres — estabelece as regras gerais, a metodologia e os coeficientes dos pisos mínimos, referentes ao quilômetro rodado na prestação de serviço de transporte rodoviário de cargas, por eixo carregado, instituído pela Política Nacional de Pisos Mínimos do Transporte Rodoviário de Cargas, publicados no “Diário Oficial” na última quinta.

Para a entidade, “é inevitável a insatisfação da categoria, que possuía uma grande expectativa pela resolução, principalmente pelo longo tempo que levou para ser elaborada e pelo fato dos caminhoneiros terem participado ativamente das audiências públicas com contribuições para sua construção”.

A CNTA ressaltou que “aguarda a reunião com o ministro da Infraestrutura para a próxima quarta-feira e pede a revisão adequada dos valores. Após o encontro, o presidente da CNTA, Diumar Bueno, convocará uma reunião com as entidades coligadas para discutir conjuntamente as próximas medidas a serem tomadas”. 

Sobre a queixa de Dedéco, a CNTA informou que, na última quinta, “a entidade manteve contato com o ministro apontando que havia insatisfação da categoria em relação à Resolução e o mesmo comunicou que convocaria a CNTA para uma reunião esta semana”.

Fonte: O Valor

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