Mercedes-Benz vai transferir atividades de Minas Gerais

Sede da Mercedes Benz

Rumores que circulam no governo do Estado apontam até para fechamento da unidade

Em 1999, a Mercedes-Benz inaugurava, na Zona da Mata mineira, a sua primeira fábrica fora da Alemanha. Em abril deste ano, a unidade de Juiz de Fora completará 20 anos, em meio a rumores de que pode transferir suas operações para São Paulo e para o Espírito Santo. As informações já circulam pelos bastidores do governo mineiro, que teme até o fechamento da unidade, que hoje emprega cerca de 1.100 trabalhadores.

A montadora confirma que estuda levar para o porto de Vitória o desembaraço da Sprinter, van que vem da Argentina e é nacionalizada no porto seco em Juiz de Fora. Confirma também que, embora não tenha data definida, a montagem do caminhão Actros vai para São Bernardo do Campo (SP). Entretanto, garante que não vai desativar a fábrica de Juiz de Fora, onde faz a soldagem e pintura das cabinas de todos os modelos de caminhões produzidos por ela no Brasil.

Por meio de nota, a Mercedes-Benz ressalta que a unidade de Juiz de Fora recebeu R$ 230 milhões em investimentos nos últimos cinco anos e, só de setembro de 2018 até agora, contratou mais de cem colaboradores e ativou um segundo turno de produção, o que, segundo ela, confirma o interesse em permanecer na cidade.

A empresa não comentou também a medida do governador de São Paulo, João Doria, anunciada na sexta-feira, de oferecer desconto no ICMS de até 25% às montadoras que investirem mais de R$ 1 bilhão e criarem ao menos 400 postos de trabalho no Estado. O governo de Minas, em nota no dia do anúncio do tucano, não comentou a medida, mas disse que “está atento às questões que possam impactar a economia regional”.

Vendas. Em 2018, a Mercedes-Benz vendeu mais de 19 mil caminhões no Brasil, um crescimento de 50% em relação a 2017. “Estamos aumentando as nossas vendas de caminhões, e a fábrica de Juiz de Fora acompanha esse crescimento, uma vez que produz todas as cabinas de nossos caminhões”, diz a montadora.

Nem todos esses números positivos conseguem dissipar a preocupação entre os trabalhadores. “Essa mudança do Actros para São Bernardo do Campo já era prevista. Mesmo assim, contrataram quase 500 pessoas em um ano e três meses. A questão é se esses trabalhadores continuarão aqui depois da transferência”, destaca o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Juiz de Fora, João César da Silva.

O secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Agricultura de Juiz de Fora, Rômulo Veiga, afirma que a preocupação não é em relação ao Actros. “Essa mudança faz parte do planejamento global da marca e não dá para mudar. Já a transferência do desembaraço da Sprinter é algo reversível, pois não foi fechado. O Estado precisa atuar o mais rápido possível, o que pode ser feito reduzindo a burocracia. Em conversas, algumas empresas me disseram que o desembaraço no porto de Vitória tem demorado de dois a quatro dias a menos em relação ao porto seco de Juiz de Fora. A estrutura da Mercedes-Benz já está aqui e é interessante para ela ficar, mas, se tiver vantagens em outro Estado, pode ir. É isso que o governo mineiro tem que impedir”, explica.

Procurada, a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (Sedectes) informou, por nota, que já manteve contato com a direção da Mercedes-Benz, e a que trabalha para que não haja a redução nem a paralisação nas operações da fábrica de Juiz de Fora. “Existe o compromisso da empresa em manter as atividades no município, principalmente na fabricação de cabinas de caminhões, mantendo os investimentos previstos e a manutenção dos empregos gerados atualmente”, concluiu a nota.

Em 2018: A Mercedes-Benz vendeu mais de 19 mil caminhões no Brasil, uma alta de 50% em relação a 2017, que garantiu à marca uma participação de 27,8% no mercado brasileiro de caminhões.

Em 2019: Considerando somente os meses de janeiro e fevereiro, a Mercedes-Benz vendeu mais de 3.900 caminhões, alta de 67% em relação ao mesmo período do ano passado, 30% do mercado brasileiro. 

Mercado nacional: De cada cem caminhões vendidos no Brasil em 2018, cerca de 28 foram da Mercedes-Benz.

Caso Ford

Ford: Em fevereiro, anunciou o fechamento da unidade de São Bernardo do Campo que produz o Fiesta, além de caminhões. São 3.000 trabalhadores.

Compradores: Segundo o governador de São Paulo, João Doria, três empresas já teriam entrado em contato, com interesse em comprar a fábrica, sendo duas multinacionais e uma brasileira.

Negativa: Por meio de nota, a Mercedes não confirma o interesse, diz que não comenta a decisão da Ford e reitera que a sua produção de veículos comerciais acontece na fábrica de São Bernardo do Campo e em Juiz de Fora.

Perdas financeiras seriam grandes para a Zona da Mata

Em duas décadas, a fábrica da Mercedes-Benz em Juiz de Fora nunca conseguiu operar em 100% da sua capacidade, o que cercou a trajetória de boatos sobre fechamento. Mesmo assim, a montadora nunca desistiu. Em 2012, virou a chave dos comerciais leves e passou a produzir caminhões na planta. Hoje, monta o Actros, solda e pinta as cabinas dos demais modelos pesados da marca e faz o desembaraço da Sprinter.

“É importante que os governos do Estado e do município trabalhem pela manutenção do desembaraço das vans importadas da Argentina. Caso saia, a perda na arrecadação será significativa. E isso não pode acontecer no atual momento (econômico). Tem que sentar para negociar com a Mercedes”, afirma o presidente da regional da Zona da Mata da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Aurélio Marangon.

De acordo com o secretário municipal de Desenvolvimento, Turismo e Agricultura de Juiz de Fora, Rômulo Veiga, só o repasse dos 25% do ICMS que ficam com o município gira em torno de R$ 3 milhões. “Sem falar nos empregos e no impacto na economia local”, diz.

O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Juiz de Fora, João César da Silva, afirma que nesta semana haverá reunião com um diretor de Recursos Humanos da fábrica de São Bernardo do Campo, para entender as mudanças que estão por vir.
Fonte: O Tempo

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