Fiscalização no Anel Rodoviário aponta irregularidades em 70% dos caminhões parados

Fiscalização no Anel Rodoviário aponta irregularidades em 70% dos caminhões parados

Perigo é ainda maior quando veículos pesados com problemas de manutenção trafegam pela faixa da esquerda. Movimento maior do feriado liga o alerta para problema


Em um dia em que as estradas de Minas têm movimento extra, devido ao recesso proporcionado pelo feriado da Proclamação da República, um indicador preocupante para todos os motoristas vem da rodovia que corta Belo Horizonte. Prestes a completar um ano, as blitzes de abordagem a caminhões no Anel Rodoviário, da Polícia Militar Rodoviária (PMRv) e da Via 040, concessionária responsável por 10 quilômetros da estrada por onde passam diariamente cerca de 160 mil veículos, indicam que a maioria dos veículos de carga trafega com irregularidades, muitas delas graves. 


Nas 14 edições das inspeções mais minuciosas, que desde dezembro do ano passado buscam identificar falhas capazes de causar acidentes, 680 veículos pesados foram inspecionados, com 478 multas emitidas. Segundo a Via 040, 70% dos veículos de carga fiscalizados são passíveis de multas. O que mais chama a atenção é o estado de conservação. Na última operação, na terça-feira, foram 38 autuações a 46 caminhões parados, sete deles com pneus carecas, um com estado que assustou mecânicos da Via 040 e policiais militares. O caminhão só foi liberado depois da troca de dois pneus.
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O risco, que já é grande apenas pela falta de manutenção adequada, fica ainda maior, segundo a PMRv e a Via 040, quando os caminhões são flagrados transitando pela faixa da esquerda do Anel Rodoviário, o que não é permitido pela legislação. Nessas condições, os veículos de carga aumentam a velocidade e normalmente fazem manobras de ultrapassagem, que também têm potencial para aumentar o risco de acidentes. “Quanto maior a velocidade, aumenta também a gravidade do acidente, além de atrapalhar o trânsito, porque mesmo andando mais os veículos pesados não desenvolvem as mesmas velocidades dos carros menores e tumultuam o trânsito”, diz o tenente André Muniz, da PMRv.

Ontem, a equipe do Estado de Minas flagrou esse tipo de situação no trecho de seis quilômetros da perigosa descida entre os bairros Olhos D’Água e Betânia, Oeste da capital. Um dos caminhões se posicionou na faixa da esquerda para fazer ultrapassagem, mas continuou, sendo obrigado a trafegar no meio de carros pequenos. É naquela região que costumam acontecer os acidentes mais graves do tipo engavetamento, quando caminhoneiros não conseguem reduzir a velocidade a tempo de evitar batidas em filas de veículos parados, devido aos pontos de estrangulamento do Anel.

Na blitz da última terça-feira, dois casos específicos chamaram mais a atenção. Um caminhão de minério foi parado com dois pneus sem qualquer condição de rodagem. Um deles tinha a banda de borracha praticamente solta, além de buracos no revestimento. De acordo com o coordenador de Operação Viária da Via 040, Fábio Gerardi, os militares da PMRv só liberaram a saída desse veículo depois da troca de dois pneus, além de terem autuado o condutor. “A gente percebe a negligência dos condutores e até de empresas, porque são manutenções que precisam ser feitas periodicamente, e as pessoas deixam de lado. Estão mais preocupadas em fazer viagens e arrecadar do que propriamente com a conservação que vai preservar a vida delas e de outros”, afirma Gerardi. Ele explica que a intenção é repetir as operações integradas de fiscalização o máximo possível e que este ano ainda devem ocorrer mais quatro ou cinco blitzes.
Gerardi também chama a atenção para a negligência com o sistema de freios, o grande vilão da temida descida do Bairro Betânia. “Em muitos veículos a gente identifica o sistema de freio motor desativado. Dessa forma, eles acabam usando mais o freio hidráulico e aí acabamos identificando peças já desgastadas, que contribuem para a perda de freio”, diz o coordenador.

Nas blitzes integradas no Anel, a Via 040 destaca funcionários capacitados para vistoriar toda a parte mecânica dos caminhões, enquanto a PMRv faz a fiscalização e autua aqueles infratores que desrespeitam as normas de segurança. Na terça-feira, outra situação que chamou a atenção dos foi o estado de conservação da carroceria de um caminhão, remendada com pedaços soltos de madeira e presa com arame.

Segundo o tenente André Muniz, essa situação gera um risco muito grande, pois pedaços da carroceria podem se soltar e causar acidentes. “As fiscalizações são de suma importância para mostrar que os condutores não podem andar de qualquer maneira. O objetivo é mostrar para as pessoas que elas estão sendo fiscalizadas e que devem tomar as medidas necessárias”, completa o militar. No caso do caminhão com problema na carroceria, a Via 040 informou que o condutor não conseguiu providenciar a solução no local e por isso foi acompanhado até um lugar seguro para evitar qualquer problema. Ele foi multado pelo estado de conservação da caçamba.
FORA DE CONTROLE

No mês passado, um acidente com um caminhão que perdeu os freios por pouco não causou uma tragédia no Bairro Olhos D’Água. O veículo pesado subia o Anel Rodoviário quando alcançou a BR-356 e logo depois entrou no bairro, em direção a uma empresa de cimento. Logo que chegou a uma marginal do Anel, ficou sem freio, acertando nove casas e cinco veículos até parar praticamente dentro de uma moradia. O caminhoneiro foi encaminhado a um hospital e, por sorte, nenhuma pessoa foi atingida. Os primeiros levantamentos da perícia indicaram falha no sistema de freios.

Na última fiscalização

>> 46 veículos pesados fiscalizados
>> 38 autuações lavradas
>> 7 caminhões com pneus carecas
>> 13 com problemas elétricos
>> 2 condutores sem cinto
>> 8 veículos sem faixas reflexivas obrigatórias
>> 1 sem disco de tacógrafo
>> 3 veículos com dados incorretos no disco de tacógrafo
>> 1 veículo sem tela na carga
>> 1 veículo não licenciado e removido
>> 2 veículos sem estepe

Enquanto isso...
...Câmera ajuda a monitorar caminhões

Desde o mês de setembro uma câmera ajuda a Polícia Militar Rodoviária (PMRv) a fiscalizar a presença de caminhões na faixa da esquerda do Anel Rodoviário. Instalada no Bairro Buritis, Oeste de BH, ela transmite imagens em tempo real do trânsito no sentido Vitória, de um ponto inserido no trecho que faz parte da descida do Bairro Betânia. A fiscalização com câmera para essa situação se apoia em dois tipos de legislação. A Resolução 471, do Conselho Nacional de Trânsito (Contran), permite o uso de videomonitoramento para fiscalização do tráfego. Já o artigo 185 do Código de Trânsito Brasileiro (CTB) prevê que o veículo lento ou de maior porte deve ser punido quando não se mantiver nas faixas a ele destinadas pela sinalização de regulamentação, que no Anel são as duas à direita da pista, nos pontos em que a rodovia conta com três faixas, ou a única pista da direita onde há duas faixas. Em caso de desrespeito, o CTB prevê multa de R$ 130,16 pela infração média, também punida com a perda de quatro pontos na Carteira Nacional de Habilitação (CNH).


O risco em números

14
operações integradas foram feitas desde dezembro de 2017, pela Via 040 e pela PMRv, para fiscalizar caminhões que trafegam no trecho mais crítico do Anel Rodoviário de BH

680
veículos pesados foram vistoriados, sendo 478 multados por problemas diversos

70%
dos veículos fiscalizados apresentaram irregularidades passíveis de multas

Fonte: