Empresários e caminhoneiros dizem quanto custa conviver com a violência nas estradas

Empresários e caminhoneiros dizem quanto custa conviver com a violência nas estradas

Caminhoneiros dizem quanto custa conviver com a violência nas estradas


Só este ano, os 25 motoristas que trabalham para o empresário Reinaldo da Matta Machado, dono de uma pequena transportadora na Penha, Zona Norte do Rio, sofreram mais de dez roubos nas estradas. Especializado no transporte de cosméticos e itens de higiene pessoal, Reinaldo atua só no Estado do Rio. Metade dos seus 44 motoristas foi assaltada, nos últimos anos, enquanto trabalhava. 

Um dos motoristas foi diagnosticado com síndrome do pânico. Quando conseguiu sair de casa, conseguiu um emprego de garçom.

O aumento dos roubos de carga impactou diretamente no faturamento da transportadora. Diferentemente de antes, atualmente a seguradora cobra de Reinaldo uma franquia que equivale a 15% do valor da carga. Além disso, 20% do faturamento é gasto com seguros e gerenciamento de risco. 


— Estou amargando um prejuízo bem forte há muito tempo com a crise na segurança. Faz três anos que a empresa está no vermelho, e eu credito isso à violência. Estou no centro do furacão — atesta.

Os esforços para atenuar o crime — compra de rastreadores e a contratação de empresas especializadas em investigar a vida pregressa de funcionários — não surtiram efeito. Há quatro meses, Reinaldo soube que um motorista havia sido abordado por assaltantes, que, armados com fuzil, exigiram que fossem seguidos. O motorista, contudo, já seguia outro veículo a pedido de outros criminosos.

— Em qualquer país de primeiro mundo o rastreamento existe como maneira de controlar a logística. Aqui isso é a última coisa que se pensa — conclui Machado.

Na parede do escritório, o empresário coleciona troféus que a empresa ganhou no passado pela eficiência nas entregas. As premiações acabaram depois da violência.

Ao volante, o medo não cessa. Essa é a rotina do caminhoneiro Jessé Gomes de Almeida, de 67 anos. Assaltado no ano passado enquanto dirigia seu caminhão, acabou adquirindo um trauma que o faz pensar em mudar de profissão.

Há nove meses, Jessé foi sequestrado em São João de Meriti enquanto transportava uma carga de cosméticos:

— Eu e o ajudante fomos colocados em um carro de passeio, e rodaram com a gente por lugares desconhecidos, sempre ameaçando com uma arma.

Na semana posterior ao crime, o caminhoneiro passava por uma calçada da Penha quando foi abordado por um amigo. O gesto brusco do rapaz, que quis lhe cumprimentar, foi suficiente para que “quase tivesse um ataque cardíaco”, segundo descreve.

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— Você fica passando mal 30 dias, não consegue trabalhar. Se uma pessoa vem te pedir informação, você já se assusta. É uma tensão psicológica. A vontade no momento é de abandonar o trabalho e encostar o veículo, vender para o ferro velho e parar de trabalhar. Quando saio de casa peço a Deus para voltar ileso — afirma o caminhoneiro, que já foi assaltado seis vezes.

O trauma afetou o dia a dia na profissão. Ele suspeita de que sofra de estresse pós-traumático, embora ainda não tenha consultado um médico. Para o caso de acontecer o pior, Jessé deixou sua mulher avisada: é para vender o caminhão antes que um dos filhos decida perseguir a carreira.

Proprietário de uma transportadora em Santo André, no ABC paulista, o empresário Antonio de Oliveira Ferreira, de 66 anos — 40 dos quais no ramo de transporte — teve 22 dos 400 caminhões que dispõe roubados desde o ano passado. Resultado: teve de desembolsar R$ 2 milhões só com franquias de seguros.

Nos últimos dez anos, ele destinou quase a mesma quantia com a segurança da sua frota. Instalou rastreadores, travas e treinou os funcionários. Pouco adiantou.

— Temos uma gestão muito forte na prevenção do roubo de carga, mas sempre há prejuízo, principalmente no Rio de Janeiro. Em São Paulo consegui inibir, com três ou quatro casos apenas.

Ele chama o local onde a maioria dos roubos aconteceram, na junção da Avenida Brasil com a Dutra e a Washington Luis, de "triângulo das bermudas".

— Eles encostam ao lado do caminhão com um fuzil e não tem o que fazer.

Se não houver segurança, conta o empresário, o caminhão fica impedido de ser abastecido nas indústrias.

Antonio costuma transportar de pneus a itens de limpeza. Para isso, tem 25 funcionários dedicados ao gerenciamento de risco de cargas e carretas. Um problema vem lhe causando dor de cabeça: ter de revezar os motoristas sempre que há entregas destinadas ao Rio de Janeiro.

— Metade dos meus motoristas não saem de São Paulo, principalmente para o Rio, nem com reza brava. Eles falam: 'Me manda embora, mas não me manda pro Rio'. A própria família não deixa o motorista viajar.

O problema reflete no desempenho dos funcionários e na busca por recursos humanos.

— Você vê motoristas depressivos. Hoje está muito difícil contratar motoristas por causa dos roubos.


Segundo conta, muitos motoristas debandaram para outras profissões enquanto outros são encaminhados para tratamento psicológico. É comum afastar funcionários por até 90 dias por conta de traumas gerados por assaltos. De seus 380 funcionários, o empresário calcula, ao menos 60 foram assaltados durante o expediente nos últimos cinco anos.

— Isso (a violência) acaba alterando a produtividade não só dos funcionários, mas operacional — diz.

O que se traduz, em parte, nas restrições de horário de circulação impostas por seguradoras. No caso de Ferreira, o acordo está incluído nas cláusulas do contrato: na rota entre São Paulo e Rio, os motoristas não podem dirigir durante a madrugada.
Fonte: O globo