Aos 103 anos, ZF amplia o olhar e entra em nova era

Aos 103 anos, ZF amplia o olhar e entra em nova era

Aos 103 anos, ZF amplia o olhar e entra em nova era


Há 103 anos a ZF foi fundada em Friedrichshafen, na Alamanha, com o principal objetivo de oferecer componentes mecânicos para a fabricante de dirigíveis Zeppelin. Desde então muita coisa mudou – a começar pelo próprio dirigível, que a rapidez do tempo tornou inviável comercialmente como meio de transporte, mas segue firme e forte como atração turística na cidade alemã. Já a ZF se transformou em uma das maiores fornecedoras de sistemas e componentes da indústria automotiva no mundo – e quer ficar cada vez mais distante do título de tradicional fornecedora de partes mecânicas, entrou de cabeça na era da inteligência artificial, em alta velocidade de processamento. 


Os últimos três anos foram de profundas transformações para a empresa, que ganhou novo fôlego ao comprar a TRW, empresa global sediada nos Estados Unidos que trouxe para a companhia competências cada vez mais necessárias para tornar viável a indústria automotiva do futuro: a capacidade de desenvolver câmeras, radares, sensores e dispositivos de segurança avançada para os veículos “foi um grande desafio, mas concluímos a maior parte da integração e tudo vai bem”, diz Peter Lake, membro do conselho de administração da companhia com responsabilidade pela área de vendas. 

O executivo veio da TRW e teve mão-forte no desenho do ZF 2025, plano estratégico que a companhia desenhou para os próximos anos e deve se estender até 2030. “Tive uma grande responsabilidade nos últimos três anos”, afirma, confirmando que ficará na companhia até setembro próximo. Depois disso, se aposenta para desfrutar merecido descanso. Com o plano estratégico, Lake pretender deixar a transformação como seu principal legado para a empresa. 

“A nossa ambição é ser uma provedora de soluções, de sistemas, com capacidade para trabalhar próxima aos clientes e oferecer tecnologias avançadas”, resume Lake.
O executivo conversou com a imprensa global durante Technology Day que a ZF organizou em sua sede, em Friedrichshafen, para exibir as novidades tecnológicas em que vem trabalhando. O centro administrativo da empresa acaba de ser completamente reformado para abrigar os novos anseios da companhia. A seguir, veja alguns dos principais aspectos da estratégia da ZF destacados por Peter Lake: 

- LIDERANÇA TECNOLÓGICA

As apostas tecnológicas da ZF se apoiam em quatro pilares, aponta Lake. O primeiro é o que ele chama de “controle do movimento dos veículos”, levando em conta tecnologias de powertrain e, segundo ele, tudo que envolve a jornada de colocar um veículo em movimento, rodar e parar novamente. A ZF quer ter as tecnologias mais avançadas para este processo. 

A segunda base está no desenvolvimento da condução autônoma. A segurança integrada, incluindo dispositivos de proteção ativa e passiva, também compõem um dos pilares de desenvolvimento da companhia, ao lado, enfim, de tecnologias de eletrificação. “Para integrar tudo isso teremos a internet das coisas e as oportunidades que a conectividade oferece, com dispositivos que se comunicam entre si”, diz.

Segundo ele, a ZF quer se manter na liderança da oferta destes produtos tanto para carros de passageiro, quanto para veículos comerciais e industriais.

- PARCERIAS E MAIS PARCERIAS

Desde a compra da TRW o número de parcerias que a ZF estabeleceu com outras empresas, principalmente de tecnologia, cresce exponencialmente. É a “força da coletividade”, como diz Lake. A companhia criou um fundo de investimento para comprar participação em negócios promissores, que possam oferecer sinergias com a empresa. A ideia é sempre investir para ter participação, mas nunca incorporar completamente as startups, que perderiam a agilidade ao se integrar à dinâmica mais lenta de uma corporação. 

É uma certa humildade intelectual de entender que nem sempre as respostas surgirão dentro da companhia. “Quando nós não formos capazes de desenvolver alguma tecnologia internamente e fizer sentido, vamos buscar parcerias fora.” A ZF mantém cooperações com empresas como Nvidia, a fabricante alemã de sensores Lidar Ibeo e com a Astyx, que faz radares de alta frequência, entre muitas outras. 

A empresa estuda, inclusive, desenvolver um programa no Brasil para identificar e firmar cooperação com startups locais. O plano, no entanto, foi postergado nos últimos anos por causa da crise e ainda não tem data oficial para começar a rodar. 

- NOVOS MODELOS DE NEGÓCIO

“Há grande oportunidade de oferecer serviços na indústria de modelos pesados. Poderemos vender tanto para fabricantes quanto para donos de caminhões”, diz Lake, admitindo que há um universo de novas possibilidades (e mercados) que a ZF quer explorar com o avanço de novas tecnologias. A companhia, de fato, começa a mirar em clientes que não são exatamente montadoras de veículos, com planos de oferecer tecnologia para terminais de carga ou empresas de transporte. 

- PRODUTOS ATUALIZÁVEIS

Para Lake, ficou para trás a era das soluções estáticos que são vendidos em seu formato definitivo. “A internet possibilita novos produtos que podem ser atualizados ou melhorados, interagindo uns com os outros. Podemos agora usar big data em campo para entender a performance do produto no mercado, oferecer manutenção preditiva, soluções, prever demandas, aprender sobre a qualidade do produto e melhorá-lo.” 

- BRASIL SEGUIRÁ RITMO GLOBAL

Lake admite que há mercados mundiais vanguardistas e outros que são seguidores, mas entende que todos estão focados na mesma direção: a condução autônoma. “O intervalo de tempo de adoção de tecnologias entre esses mercados está diminuindo. Precisamos ter soluções escaláveis, modulares e acessíveis para todos.” 

“Estamos no Brasil há 60 anos, quando o país recebeu a nossa primeira planta fora da Alemanha. Temos faturamento de R$ 3 bilhões por ano lá e grande foco para desenvolver soluções de engenharia”, destaca Lake. 

- AUTOMAÇÃO SERÁ MAIS DEVAGAR QUE O ESPERADO

Apesar de toda a expectativa em torno da direção autônoma, Lake lembra que a tendência é que a produção em massa nos próximos anos esteja concentrada nos níveis intermediários de automação. É ali, avalia, que estará o maior volume de vendas. “Até 2030 só 10% dos veículos produzidos devem ter automação realmente elevada”, estima. O executivo voltou a falar que a indústria terá evolução até chegar ao carro autônomo, não revolução. "Quanto mais aprendemos, mais temos o que aprender. Temos visto este amadurecimento em uma série de empresas automotivas."

Lake acredita que parte do movimento será puxado pelo setor de veículos comerciais. A questão é que tudo precisará ser financeiramente vantajoso para crescer neste segmento, é aí que estará a expansão do uso das novas tecnologias, aponta. “Quando pensamos no transporte coletivo de pessoas, tudo depende muito de onde estará o aumento da rentabilidade. É isso que vai puxar a automação.” 

Segundo o executivo, os volumes serão gradativos. No começo, diz, será preciso investir nas novas soluções, em câmeras e sensores. Por isso o setor precisa que essas receitas sejam compensadas. “Precisamos ser capazes de entregar essa segurança e conforto para a sociedade, mostrar este valor”, diz.
Fonte: Automotive Business