Um caminhão de queixas: RJ não tem mais rodovias bloqueadas, mas motoristas mantêm paralisação


Os caminhoneiros chegam, hoje, ao nono dia de paralisações, mesmo após o governo federal anunciar medidas favoráveis à categoria, como a redução de R$ 0,46 no litro do diesel por dois meses e a suspensão da cobrança de pedágio sobre eixos levantados de caminhões vazios. No Rio, ontem, não houve bloqueio de rodovias, mas poucos caminhões de carga eram vistos nas estradas. O JORNAL DO BRASIL ouviu motoristas parados à beira da BR-040, que liga o Rio à Minas Gerais. Autônomos, todos dizem ainda respeitar a paralisação e pedem a regulamentação do frete e garantias de que o preço do combustível não voltará a subir diariamente, passados os 60 dias de desconto.


Há uma semana estacionado a poucos quilômetros da praça do pedágio da rodovia, Rubens de Lima não acredita nas propostas do governo. “Baixaram 46 centavos agora, mas é capaz de aumentarem R$ 1,00 lá na frente. Aí não adianta”, reclamou. “Eu só saio daqui quando as estradas em São Paulo estiverem liberadas. Enquanto tiver protesto, não faço questão de rodar”, disse ele, que termina a viagem naquele estado.

Rubens veio de Ipanema (MG), em um caminhão de cinco eixos com 27 toneladas de clarofilito, um material de construção. Carga entregue no Rio, deveria seguir para Barbacena (MG) e depois para Campinas (SP) para novos fretes. No entanto, segue parado. No trajeto de 1.270 km, nem sempre carregado, o caminhoneiro pagará 11 pedágios, um custo de R$ 431,50. Este valor deve cair quando a isenção para eixos levantados passar a valer em São Paulo, o único estado do percurso onde a taxa era cobrada para caminhões vazios. 

Antes da greve, Rubens aproveitou uma promoção e encheu o tanque com o diesel a R$ 3,65 – o que custou R$ 2.700. O valor pago pelo frete foi de R$ 3.600, mas o montante passará, primeiro, nas mãos do dono do caminhão, que emprega o motorista. “Está valendo muito pouco fazer isso”, lamenta. Nos últimos dias, com a demanda pressionada pela escassez, a margem de lucro tem sido menor. Hoje, o posto mais próximo do caminhoneiro com combustível, um Ipiranga na altura de Duque de Caxias, praticava preços ainda mais altos. O litro do diesel custava R$ 4,00 e, o da gasolina, R$ 5,10.
De acordo com o representante comercial da Mercedes-Benz Evandro Lelis, um caminhão de cinco eixos lotado de carga, como o de Rubens, tem desempenho médio de 2 km por litro. Mas os gastos ainda envolvem a manutenção dos 18 pneus, orçados em R$ 2.000 cada um, cinco trocas de óleo ao ano, no valor de R$ 400 cada, e impostos como o IPVA. “Está tudo muito caro e o combustível está estrangulando o lucro”, diz Nélio Barbosa, que tem um pequeno caminhão e atua no estado do Rio há 22 anos, transportando entulho de construção. Parado há uma semana, ontem, ele foi para a porta da Refinaria da Petrobras (Reduc), em Caxias, para pedir uma redução no diesel maior do que a oferecida pelo governo.

“Hoje, 70% da minha receita vai para o combustível. Com o que sobra, faço a manutenção do caminhão, boto comida em casa e pago as contas mais atrasadas”, reclama Nélio, que tem seu próprio caminhão e demora até 60 dias para receber depois de um frete. “Nesse tempo, os preços sobem, mas eu recebo o que orcei lá atrás, com outros valores. Fica muito difícil de reinvestir”, explica ele, que sonha com uma regulamentação que atrele o preço do frete aos reajustes do diesel.

Erlandison Bezerra, que tem dois caminhões e trabalha no ramo há 13 anos, disse que nunca viu preços tão altos como os deste ano. O valor do diesel praticado pela Petrobras nas refinarias subiu mais de 59% no último ano, alta que foi repassada para as bombas dos postos. “Essa redução que anunciaram é esmola pra quem coloca 200 litros dia sim, dia não”, reclamou. Erlandison conta que tirou seu outro caminhão de circulação porque não vale mais a pena pagar alguém pelo serviço. Hoje, diz que 60% do seu gasto é com combustível. “Há dois anos, eu pagava a metade do que gasto hoje com óleo diesel”, queixa-se. 

Fonte: JB