Food truck: Quanto custa e como começar este negócio?


As “carrinhas de comida” têm dominado as paisagens urbanas do nosso país, sendo já uma tendência que veio para ficar. Mas se quisesse ter um negócio como este, sabe quanto teria de gastar? Neste artigo revelamos uma estimativa para todos os empreendedores que desejam ter os seus restaurantes “sobre rodas”.

Conforme os números da Associação de Street Food Portugal, este setor foi avaliado em 5,7 milhões de euros em 2015, um acréscimo de 81% face ao ano anterior. Para além de um modelo de negócio, ter um food truck já é uma moda.
O que é um food truck?
Desde cachorros e hambúrgueres gourmet, passando pelos sumos de fruta e gelados de iogurte até às deliciosas opções da gastronomia local, são inúmeros os veículos adaptados para produzir e servir refeições, distinguindo-se das tradicionais roulottes de bifanas ou farturas através de um conjunto de inovações.

É o fim das refeições baratas e de baixa qualidade e o início de uma nova era de sabores de alta qualidade “em movimento”. É mais acessível manter um camião do que um estabelecimento comercial e, por isso, muitos chefes optaram por esta via, levando os seus pratos de alta qualidade para as ruas movimentadas das grandes cidades a um preço muito mais acessível – esta é, sem dúvida, a grande inovação desta área de atividade.

Seja um jovem ansioso pela aventura de lançar o seu primeiro negócio ou um chefe cujo nome já é conhecido no mercado e que pretende, por esta via, explorar novas formas de testar os seus conceitos, os perfis de investidores neste setor variam.

Já existem até marcas conhecidas que transportam os seus produtos do espaço físico para uma alternativa móvel (exatamente como fez A Brasileira, que no ano passado levou o seu famoso café do Chiado para as ruelas e vielas de Lisboa a bordo de uma Piaggio APE 50).

Estes vêm satisfazer necessidades de consumidores apressados no seu dia-a-dia de trabalho e que procuram refeições de qualidade a preços take-away. Poupar tempo e dinheiro são, desta forma, fatores-chave inerentes a esta atividade.

Como entrar neste negócio?
Há mercado em Portugal para os food trucks porque existe uma nova geração de amantes da chamada street food que se encontra nos ambientes cosmopolitas. E os empreendedores desta área beneficiam de uma publicidade (especialmente nas redes sociais) que nunca foi tão intensiva.

Recorrendo ao perfil do Miguel, um jovem de 27 anos que trabalhava numa empresa multinacional, mas que decidiu iniciar o seu próprio negócio neste ramo, vejamos o “kit de iniciação” de que necessita para pôr o seu restaurante mexicano on-the-go sobre rodas.

1) Delinear um plano de investimento
O primeiro passo para iniciar este negócio reside, obviamente, na viatura. No caso do jovem empreendedor Miguel, este adquiriu uma carrinha FIAT Ducato. No entanto, muitas outras opções de veículos podem existir, desde a chamada Volkswagen Pão de Forma até às pequenas e acolhedoras APE 400, por exemplo.

Em termos de modificações, é necessário colocar bancadas em inox, tratar do sistema elétrico, pintar, decorar e afins.

Na tabela abaixo é possível encontrar uma estimativa de todos os custos que o Miguel terá com a aquisição dos equipamentos e transformação do veículo:

Estimativa de custos iniciais
FIAT Ducato 30 MH2 Multijet  – 26.700€
Reforço de suspensão devido ao peso extra – 2.000€
Iluminação interior e instalação elétrica – 2.200€
Sistema de água e reservatórios – 1.100€
Espaço adaptado para acomodação de alimentos – 600€
Placa de grelhar, forno e microondas – 3.500€
Sistema de Frio – 2.200€
Pintura e decoração – 1.500€
TOTAL – 39.800€

No total, conforme as estimativas de encargos, o investimento inicial em equipamento pode rondar 40 mil euros. Depois existem obviamente os custos com a manutenção do equipamento, mas, para começar, isto é tudo o que o Miguel precisa.


Já relativamente ao retorno do investimento num food truck, de acordo com a Street Food Portugal, pode ser recuperado entre nove meses a três anos.

Em Portugal já existem empresas especializadas na conceção de food trucks, as quais facilitam todo o processo de modificação do veículo, pintura e decoração, disponibilizando ainda as bancadas em inox e o sistema elétrico e de refrigeração.

2) Efetuar o licenciamento
Depois de adquirido todo o equipamento, é preciso passar pelo licenciamento obrigatório. No caso deste setor, são precisos dois tipos de licenciamento.

Por um lado, o chamado Licenciamento Zero, um regime simplificado para a instalação, modificação e encerramento de estabelecimentos de restauração ou de bebidas, de comércio de bens, de prestação de serviços ou de armazenagem, ao abrigo do Decreto-Lei n.º 48/2011 de 1 de abril.

Por outro lado, é preciso igualmente uma licença de exercício de atividade para venda ambulante, que é sempre tratada junto da respetiva Câmara Municipal do local onde o food truck estará instalado.

É fundamental ainda consultar o regime jurídico da instalação e funcionamento dos estabelecimentos de restauração ou de bebida através do Decreto-Lei n.º 234/2007 de 19 de junho. Já em matéria de higiene e segurança é imprescindível o Decreto-Lei n.º 67/98 de 18 de Março.

3) Contratar os seguros necessários
Para além dos equipamentos, existe uma panóplia de seguros que também faz parte das despesas de investimento, sendo essencialmente quatro: automóvel, acidentes de trabalho, multirriscos e responsabilidade civil para exploração (setor alimentar).

O Miguel é de Lisboa e tem carta de condução desde 2009. Com base nestes pressupostos, o seguro automóvel que precisará para a sua Fiat Ducato, versão 30 MH2, com cilindrada 2.3, Multijet, a diesel e com 120 CV de potência rondará um prémio de 1.500 euros anuais.

É importante que um seguro automóvel para um food truck tenha um conjunto de coberturas essenciais, tais como: garantia de responsabilidade civil, proteção jurídica, quebra de vidros, assistência em viagem e ainda, no âmbito de uma proteção mais alargada para danos próprios, cobertura de choque, colisão e capotamento, contra incêndio, raio ou explosão e fenómenos da Natureza, atos maliciosos, furto ou roubo.

No que diz respeito ao seguro de acidentes de trabalho, assumindo que o mesmo se aplicará ao Miguel e ao funcionário que ele contratará para ajudar na confeção da comida, e tendo como referência um salário base de 700 euros para cada um, o prémio deste seguro será de aproximadamente 450 euros por ano.

Importa também segurar o mobiliário e equipamento que o Miguel colocar dentro do food truck (a arca frigorífica, a bancada em inox e afins) como forma de prevenção contra incêndios ou explosões, queda de raios, tempestades, inundações, danos por água, avaria de máquinas, danos em bens refrigerados, riscos elétricos, derrame de sistemas de arrefecimento/aquecimento, furto ou roubo. Uma proteção como esta, transposta num seguro multirriscos, custará a este jovem empreendedor 190 euros anuais.

Por último, terá ainda de ser contratado um seguro de responsabilidade civil para exploração de estabelecimento no setor alimentar, que terá um custo de cerca de 250 euros por ano.

Estimativa de custos anuais com seguros
Automóvel – 1.500€
Acidentes de Trabalho – 450€
Multirriscos para equipamentos – 190€
Responsabilidade Civil Exploração – 250€
TOTAL – 2.390€

4) Financiar o projeto
Por último, mas não menos importante, para tornar o food truck na sua “galinha dos ovos de ouro”, o Miguel precisa de financiamento, pois não dispõe do montante total necessário. Vejamos as opções que lhe assistem nesta era tão propícia à criação de startups.

Em primeiro lugar, pode recorrer a business angels, que são investidores privados que, face a projetos que considerem ter viabilidade, investem capital próprio com a contrapartida de ficarem como sócios ativos da empresa ou através de royalties, disponibilizando toda a sua rede de contactos e os seus (valiosos) conhecimentos de gestão e marketing.

Outra possibilidade é o crowdfunding (financiamento colaborativo). Se o Miguel colocar o seu projeto online, pode angariar fundos através de plataformas onde se encontram estas comunidades que investem em novos negócios: é o caso da PPL ao nível nacional ou da BoaBoa em Lisboa, a título exemplificativo.

Pode também recorrer aos chamados empréstimos peer to peer (P2P) realizados em plataformas online (como a Raize) através das quais se recebe financiamento de particulares a taxas atrativas.

Existem também alguns apoios estatais destinados a estas iniciativas. O Startup Portugal Momentum, por exemplo, é um programa para recém-licenciados que queiram abrir o seu próprio negócio. Para o perfil do Miguel, o mais adequado provavelmente seria algo como o programa Portugal 2020 que, na senda da promoção da internacionalização e competitividade, financia empresas de acordo com o seu desempenho.

Já se o Miguel optar por um crédito pessoal, beneficia do facto de poder investir em tudo o que precisa de uma só vez e ir pagando o financiamento em prestações mensais. Se solicitar 40 mil euros com um prazo de 72 meses, de acordo com as simulações do ComparaJá.pt, a sua mensalidade ao banco poderá rondar entre 720 e 800 euros.

Para quem não tem acesso a crédito bancário pela via regular ou se encontra desempregado (ou em vias de ficar), há ainda o microcrédito, uma solução com apoio do Estado.

Entre o investimento inicial no veículo e equipamentos, o processo de licenciamento e de contratação de seguros, passando pelo financiamento, o segredo para o sucesso reside na avaliação de várias opções.

Pedir orçamentos, informar-se devidamente sobre todo o procedimento legal, efetuar diversas simulações para seguros e financiamento são meio caminho andado para atingir altas velocidades nos caminhos da street food.

Mas esta é a parte “fácil”, sendo necessário adicionar à equação, para além de capacidade de fazer diferente e da visão de negócio, muito dedicação e trabalho.